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“O unicórnio, através da sua intemperança e incapacidade de se dominar, e devido ao deleite que as donzelas lhe proporcionam, esquece a sua ferocidade e selvajaria. Ele põe de parte a desconfiança, aproxima-se da donzela sentada e adormece no seu regaço. Assim os caçadores conseguem caçá-lo.”
(Leonardo da Vinci)

A jovem descansava sobre a pedra, tendo ambos os seios formosos, ainda com a flor da pureza, tão belos e encantadores, desnudos. Ela cantarolava um hino sobre o amor, despreocupadamente, enquanto suas mãos delicadas eram envolvidos por madeixas sedosas. Seus cabelos dourados, cacheados e longos cobriam-lhe as costas e parte do peito, mas nada que atrapalhasse a visão do par de seios claros e atrativos. Os olhos negros, de um brilho vivo como as estrelas, fitavam um animal que se aproximava timidamente, uma figura curiosa e rara naqueles tempos turbulentos.
Os olhos esmeralda do ser estavam fixos nos seios da donzela, ansiando mamar em cada um deles e aninhar-se nos braços suaves da humana, esquecer-se de tudo o que o cercava e o fazia sempre temer a humanidade.
Medo era algo que não existia naquele momento para a criaturinha rara. Não havia o mínimo sinal de preocupação ou instinto de sobrevivência. Apenas o desejo ilusório e nada mais.
As orelhas, sempre alertas, agora estavam baixas e desavisadas. Cada passo, num trote lento e macio na grama baixa da relva, era arriscado, mas dado com tamanha firmeza que mais parecia um leão, seu cruel predador e inimigo natural, do que o que era realmente.
A camponesa estendeu a mão esquerda, tocando a fronte do animal sagrado, roçando seu chifre tão valioso. Seus dedos delicados afagaram os pelos rasos e sedosos da criatura. Tal gesto fez o belo ser aproximar-se ainda mais, permitindo que a jovem afagasse também a crina longa e sedosa de seu pescoço.
Sentes fome? indagou a donzela, numa voz suave e chamativa. Ou sede?
O belo animal relinchou, batendo o casco na grama com grande euforia, respondendo-lhe precisamente a última pergunta. Em nenhum momento o olhar abandonou o alvo de seu desejo, o motivo de sua aventura arriscada até aquela clareira.
A língua quente do animal tocou a pele clara, delicada e perfumada da virgem, em seu umbigo formoso, fazendo-a arrepiar-se com o contato. Apreciando a lambida em seu ventre, a camponesa subiu a cabeça da criatura sagrada com seus dedos suaves até um de seus seios, sentindo o calor gostoso dos lábios equinos em seu mamilo.
O corpo pequeno do ser selvagem aconchegou-se ao da donzela, aninhando-se completamente nos seus braços. Tudo o que ele queria era obter algum carinho e beijar os seios firmes da jovem, sentir seu desejo natural ser saciado outra vez.
A camponesa emocionou-se por ter nos braços um animal tão belo e raro, que em breve seria sacrificado para saciar a ambição de um caçador. Ela poderia espantá-lo, mas precisava da recompensa para impedir a execução do pai, pois este contraíra uma dívida numa taverna e o valor devia ser coberto pela sua morte ou pelo seu pagamento imediato.
Sabendo que o destino do animal se aproximava, a jovem afagou a criatura dourada enquanto sentia os lábios equinos chuparem-lhe o mamilo esquerdo e a pele do seio, numa sucção tanto gentil quanto forte, prazerosa e dolorosa.
Os olhos esmeralda do animal sagrado cerraram-se, entregando-se ao prazer sublime de beijar tão belo peito virgem. Era o sono da paz, o prólogo da morte que espreitava num enorme galho, da árvore mais alta daquela floresta.
Olhos azuis-metálicos de um homem rude acompanhavam toda a cena, desde a longa espera até o adormecimento embriagado do unicórnio dourado. Com grande cuidado e o mínimo de ruído possível, ele armou um arco, retesando a corda e apontando a seta envenenada para a presa fragilizada e vulnerável. Somente no sono de descanso e distração, quando a guarda estava baixa, é que uma criatura tão veloz e selvagem poderia ser abatida e seu valioso corno poderia ser arrancado e tido como troféu.
Com toda a calma, afinal a caça não se moveria tão cedo, o caçador buscou o melhor ângulo para ferir a bela criatura. A precisão de sua mira era algo que espantava a todos, inclusive a ele mesmo, pois derivava de um feitiço feito por uma fada há muitos anos.
Pense bem antes de fazeres isso, filho! pediu uma mulher belíssima, sentada ao lado do caçador.
Pelos nossos deuses, mãe! assustou-se o homem, fitando a mulher.
Irás mesmo matar um animal sagrado por causa de poder?
O unicórnio dourado é raro e seu chifre, valioso e poderoso, tu bem sabes disso melhor do que qualquer um.
Matar um animal sagrado é um pecado para o qual não há perdão.
A mulher, de um olhar manso e sábio, da cor da rosa, falava docemente na esperança de dobrar o filho. Suas vestes compridas, arroxeadas, criavam um contraste com a sua pele clara, delicada e aveludada e os cabelos brancos como a neve.
O pecado é algo que alguém inventou para nos manter parados, aceitando o que a vida nos deu, mesmo que tudo seja um reles traseiro de cavalo.
Modera a tua língua ao falares comigo, pois ainda sou a tua mãe!
O caçador olhou para ela, ainda vendo a presa aninhada no colo da virgem. Ele não queria que aquela conversa toda atrapalhasse a sua caçada tão perfeita e valiosa, que fora planejada tão cuidadosamente.
Perdoa minha falta de modos, mas eu tenho uma presa para abater falou o filho, fitando o semblante sereno da fada.
Percebendo que era inútil discutir ante a teimosia do caçador, a mulher desapareceu por encantamento, mas a sua voz ainda alertou o filho pela última vez:
Eu te avisei, filho! Prepara-te para pagar o preço pela tua ambição!
Alheio à advertência, o homem voltou seus olhos azuis-metálicos para o unicórnio dourado, mais precisamente ao seu chifre único, no centro da testa.
O chifre do animal sagrado e belo era de diamante cristalino como a água da nascente, e tão duro quanto o coração de um homem dominado pelo ódio. Além dos poderes dados a quaisquer chifres de unicórnios, como a cura, a longevidade e as propriedades afrodisíacas, o corno diamantino realizava qualquer desejo, sobretudo os de riquezas e os de imortalidade.
Outra vez a corda do arco fora esticada, com a seta mortal mirada para a parte mais vital do corpo da caça. Era a hora de abater a presa valiosa.
O dom que recebera ao nascer, um presente de sua mãe, agora lhe era muito mais necessário. Se errasse, perderia a presa.
A jovem acariciava a cabeça do unicórnio, tocando por vezes no chifre diamantino, que lhe roçavam a pele da barriga incomodamente, deixando lágrimas rolarem pelo semblante triste. Ela sabia que a hora fatídica se aproximava.
O belo animal agora sugava suavemente o mamilo da donzela, totalmente envolto no manto do sono e da morte, encantado pela pureza da humana.
Quando a flecha zuniu, cortando  o ar furiosamente, selavam-se os Destinos dos três personagens da caçada cruel. A seta penetrou não apenas o frágil coração do unicórnio, mas também a alma da jovem e a sorte do caçador.
Ao sentir a flecha no interior de seu corpo, o animal sagrado deu um salto, mordiscando o mamilo da donzela, provocando um corte um pouco profundo e um gritinho de dor dela, que afastou-se para trás, levando a mão ao ferimento que sangrava. A criatura, em seguida, trotou algumas vezes, jogando-se de um lado a outro, jorrando sangue rubi através da ferida aberta, chocando-se contra o que conseguia achar, sentindo uma dor imensa e insuportável. Berrava incessantemente.
Os olhos esmeralda do unicórnio fitaram os olhos negros da camponesa, demonstrando toda a dor, todo o ressentimento, toda a fraqueza e todo o arrependimento que sentia. Aquilo machucou mais ainda a alma da jovem humana.
A seguir, a criatura sagrada e rara tombou moribunda, arfando o último oxigênio que seus pulmões suportavam, sentindo tudo arder por dentro. Ofegante, pôde ver botas de couro aproximando-se e algo gélido percorrer-lhe a garganta. Depois, para sempre, apenas as trevas.
Maldito! gritou a donzela, cobrindo o busto com uma manta, estacando o sangue e cobrindo a sua nudez.
O homem limpava o sangue da adaga nos pelos da cabeça do animal abatido, esboçando um grande sorriso de satisfação. Ignorando os insultos da jovem isca, ele cravou a ponta da lâmina ao redor da base do corno da presa, tentando retirar o precioso troféu.
Para! urrou a camponesa, sentindo nojo diante de tanta crueldade.
Cala-te, camponesa! gritou o caçador, impaciente, sem fitá-la.
Tu és um monstro sem alma!
Como ousas? urrou ele, virando-se para a jovem e apontando ameaçadoramente a lâmina a altura de sua garganta.
Mataste um animal sagrado por ambição!
Se eu o matei, é porque tu me ajudaste.
A mão firme do homem puxou o chifre diamantino com toda a força, arrancando-o do crânio, trazendo também músculos, nervos e sangue. A sua força descomunal era outra característica do sangue feérico.
A donzela avançou em direção ao caçador, sem temer a faca que a ameaçava, tentando vingar-se de algum modo, mas tudo o que conseguiu foi ser agarrada pelos cabelos dourados, com grande violência.
Melhor te aquietares, jovem! mandou o homem, falando rudemente. Se pretendes manter-te honrada, vá embora com o teu pagamento!
A camponesa ouviu um saquinho de couro com algumas moedas tilintando em seu interior. O caçador o segurava, com agressividade, na mesma mão que portava o chifre do unicórnio bem próximo ao seu rosto delicado.
Sem escolha, ela pegou a maldita recompensa e saiu o mais rápido que pôde de perto da cena do crime hediondo, desejando apenas que os deuses tivessem compaixão de sua pobre alma pecadora.
Olhando para o chão verde e macio, coberto pelo sangue da criatura pura, o homem pegou o belo chifre.
Finalmente eu tenho-te falou ele, tomado pelo desejo e pela loucura, fitando o corno de tamanho valor e poder.
O brilho que o puro e sagrado diamante produzia era fascinante. Nada em todo o mundo era tão belo, valioso e cobiçado quanto aquele chifre diamantino de unicórnio. Muitos dariam a vida e matariam para poder ter a chance de tocar nele. E agora era seu, apenas seu e de ninguém mais.
Era a hora do caçador fazer seu pedido, algo que há anos buscava recuperar.
Fechando os olhos, retornando aos tempos em que era marido e pai, o caçador relembrou a família que possuía antes da peste negra devastar tudo. Primeiro foram os filhos; com a morte deles, os sonhos dele e da esposa acabaram-se. Não haveria mais como ensinar os filhos a serem pessoas de bem, a cavalgarem pelos bosques, pescar em rios e lagos. A mulher, desesperada, buscou a ajuda da magia dos antigos, sendo presa, torturada e morta pela Inquisição. Desde então, em seu mundo de perdas e amarguras, ele almejou um meio de reencontrar a família, fazer o Anjo da Morte devolver as pessoas que ele tanto amava.
Em suas buscas, conheceu um mago que lhe contou sobre o unicórnio dourado e o seu poderoso chifre. Era daquilo que ele precisava e já havia se passado dez anos desde que iniciou suas andanças de reino em reino, matando outras criaturas, como dragões e cervos brancos, para poder ganhar dinheiro e encontrar a sua valiosa presa.
Ainda de olhos cerrados, o homem fez o seu pedido:
Eu quero reencontrar minha esposa e meus filhos!
O chifre diamantino brilhou intensamente, pronto para realizar o pedido de seu portador.
Quando o caçador pronunciou a última palavra, o seu corpo estremeceu; em seguida, como um saco de farinha trazida do moinho, tombou decapitado. Caindo sobre o gramado já embebedado de sangue sagrado, ambas as partes do corpo regaram ainda mais o lugar, agora amaldiçoado.
Finalmente, o homem encontraria a sua família.
Segurando uma espada recurva, a figura com o rosto coberto por um capuz negro e empoeirado, de longas vestes em um mesmo tom de cor, olhava o corpo sem vida. Sem hesitar, o misterioso carrasco pegou o chifre de diamante, tirando-o da mão firme do morto.
Após limpar a lâmina escura nas roupas da vítima, ele montou em um horrendo cavalo negro como as trevas e partiu para o interior da floresta, carregando consigo o grande prêmio.


NOTA: Conto integrante da antologia Se7e Visões - Ambição.

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