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Bem... Visto que terei de reescrever parte dos volumes I e II de A Fábula Inacabada (aumentando, digamos, mais umas dez páginas de cada volume, acrescentando além disso os apêndices com cenas extras,   informações complementares, como mapas, personagens, etc), vou postar aqui o capítulo III do primeiro volume, Pedras Elfo-Fádicas.
Boa leitura!

Quando o Sr. Fairy-Stone soube do acidente, abandonou a reunião com os empresários londrinos, correndo até o hospital ― não queria saber de carruagens, o que só atrasaria a sua chegada na instituição de saúde. Ele corria quase derrubando quem o encontrasse; nem o frio impedi-lo-ia de correr.
Ao chegar ao hospital, encontrou a sogra, a Sra. Saint-Floire. Perguntou sobre o acidente, sobre a esposa e o bebê.
Ainda em choque, e falando em francês, a interlocutora explicou que a filha decorava a casa quando caiu de cima de uma cadeira; rapidamente ela foi socorrida pelo cocheiro particular, rumando para o hospital. Uma empregada ficou encarregada de avisar ao patrão.
Nenhum médico ainda trouxera uma informação sequer, provocando grande preocupação em todos. Até antes da chegada do Sr. Fairy-Stone, havia se passado apenas dois quartos de hora que a acidentada havia ido para uma sala, sob os cuidados de médicos e enfermeiros.
E a demora prolongou-se por horas, sempre causando agonia nos familiares. O marido andava de um lado a outro, abalado, preocupado, receoso, temeroso, angustiado, nem parecia aquele homem confiante e otimista de outrora, até um pouco antes de receber a notícia do acidente da esposa.
Quem olhasse para a figura masculina, tipicamente londrina, notaria que os seus lábios se moviam em uma oração silenciosa, muito similar a que Ana fez, pedindo um filho ao Senhor.
“E sucedeu que, perseverando ela em orar perante o Senhor, Eli fez atenção à sua boca, porquanto Ana, no seu coração, falava, e só se moviam os seus lábios, porém não se ouvia a sua voz.”
Se aquela oração fora atendida, porque a dele também não seria? A sua fé era inabalável, inquestionável. Os avanços científicos, embora criassem trilhas que levavam ao ceticismo e ao ateísmo, não afetavam negativamente a sua crença no Criador, mas a reforçavam, visto que o homem entendia cada vez mais a complexidade da Criação.
A noite veio, cobrindo a cidade com o seu manto, trazendo consigo um frio intenso e outra nevasca. Coincidentemente foi à noite que um médico apareceu com alguma notícia.
A Sr. Fairy-Stone estava viva. A criança, morta. Todos os médicos haviam feito todo o possível para salvar a criança, que já estava com sete meses de formação.
Houve uma mistura de choro, de alívio e pesar, de alegria e tristeza. Por um lado a mãe estava bem, sem sequelas; mas, por outro, o filho estava morto. Era uma menina, que seria linda como a mãe.
O marido pediu para ver a paciente. O médico permitiu, mas avisou-o que ela dormia profundamente, sob o efeito de soporíferos.
Quando o Sr. Fairy-Stone entrou no quarto, viu o corpo da esposa entregue ao sono, tão meigo e encantador. Ele deixou lágrimas rolarem dos olhos azul-prateados.
Sentou-se numa cadeira ao lado do leito hospitalar, beijando antes a testa da mulher, como forma de respeito. Afagou os seus cabelos encaracolados, dourados, e sua pele clara, tão aveludada.
Ele orou, agradeceu a Deus por ter poupado a vida da esposa, apesar da perda da filha. Havia um motivo, isso era fato.
Era madrugada quando o Sr. Fairy-Stone foi para casa, sentindo o corpo doer com o contato do frio trazido pelo vento do inverno. Ele fora acompanhado pela mãe da esposa e por dois vigias, que gentilmente se ofereceram para acompanhá-lo, pois a cidade estava muito violenta.
O pouco que o empresário conseguira dormir fora perturbado por imagens macabras de um feto sendo devorado por um tigre enorme, enquanto a mãe gritava desesperada, impotente.
Ele acordara sobressaltado, olhando em volta, buscando alguma presença no quarto escuro. As cortinas brancas balançavam ao sabor do vento de fim da madrugada.
O coração acelerado, o suor frio no rosto, as pupilas prateadas dilatadas, o corpo trêmulo, os ouvidos parecendo ouvir uma gargalhada ao longe, a respiração ofegante, com grande dificuldade para levar ar aos pulmões.
Uma oração longa iniciou-se, como era comum se fazer sempre que um pesadelo o atormentava algo que acontecia regularmente desde a infância. Somente assim expulsaria os demônios que tanto o perseguiam nos sonhos.
Após o desjejum, o Sr. Fairy-Stone retornou ao hospital, levando consigo os presentes que havia comprado para ela. Dá-los-ia naquela visita, não esperando o Natal.
A esposa estava ainda abalada, mas o ânimo do marido conseguiu fazê-la sorrir, sobretudo ao ver um belíssimo desenho baseado num retrato seu, porém com alguns detalhes fantasiosos, como borboletas com símbolos nas asas, rosas inexistentes no mundo, todo emoldurado.
Ela era uma fada, uma mulher dotada de um grande poder: o amor. Foi o que ele disse a ela, em lágrimas de alegria.
Aquela declaração de amor a fez chorar, emocionada, feliz por estar casada com alguém tão especial.
Infelizmente a jovem Sra. Fairy-Stone não estava com o presente em mãos, mas ela falara o local que poderia ser encontrado. Era uma enorme caixa, bem guardada e embrulhada, e com um laço azul.
O marido indagou o que era o presente, recebendo como resposta um sorriso meigo e sincero, uma resposta silenciosa que ele compreendera perfeitamente: “Segredo, meu amor”.
Ao meio-dia ele tivera que sair, pois precisaria almoçar apesar de já estar atrasado em uma hora para a refeição. Mas antes beijara os lábios finos, delicados e ainda fracos da esposa, prometendo retornar à noite.
Embora pretendesse almoçar, o Sr. Fairy-Stone limitou-se a apenas uma xícara generosa de chá e alguns biscoitos, comprados numa padaria próxima ao seu escritório.
Sentado, sozinho, sentindo o aroma forte e agradável do chá que fumegava num bule sobe a mesa, ele olhou pela vidraça, observando as pessoas que andavam de um lado a outro, todas vivendo sob o governo da Rainha Vitória e dos costumes.


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A obra "A Fábula Inacabada" de Alec Silva foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não Adaptada.
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