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Após a festividade matrimonial, os recém-casados, saindo de Paris onde fizeram uma rápida parada para pegarem uma carruagem luxuosa que os levaria para Madri, estavam felizes; o casamento, apesar de ter sido realizado numa estação fria, foi belíssimo, digno de um conto de fadas.
A viagem durou alguns dias, sobretudo devido às paradas feitas em vilas a caminho do destino. Os dois se entregaram ao desejo numa dessas paradas, não esperando até chegarem ao hotel que os aguardava.
Eles fizeram amor no fim de tarde, num campo coberto por flores resistentes ao tempo gélido, sob um céu tingido de cores vivas e quentes. Os corpos se uniram em perfeita e completa harmonia, numa poesia encantadora e ímpar.
Era noite alta quando ambos retornaram para o local em que estava a carruagem, partindo rumo a Madri.
A lua-de-mel foi romântica e onírica, sempre cheia de passeios nos crepúsculos, momentos em que o casal podia olhar a aquarela no oeste, ver uma estrela ou outra e a lua, esta tão fantástica.
Por quase duas semanas eles tiveram apenas de se preocuparem com aquele amor puro e verdadeiro, que fora cultivado e nutrido por três anos até que viessem a se casar.
Era 1873, quase na metade de janeiro, quando ambos retornaram para Londres, onde os negócios do Sr. Fairy-Stone o aguardavam.
A vida, quando dividida e compartilhada ao lado de outra pessoa, parecia sofrer mudanças significativas, conforme percebeu o empresário, num momento de reflexão. Ele agora era responsável por duas vidas, e qualquer atitude gerava consequências a ambos e não apenas a ele.
E as duas vidas se enraizavam uma a outra, formando uma só, pois cada coisa era decidida em conjunto e não apenas em pensamento individual e egoísta.
Muito antes de se casar, o Sr. Fairy-Stone ouvia conselhos do círculo de amizade acerca do assunto, ouvindo frases de arrependimento, de homens que reclamavam das esposas gordas, das crianças, das enormes despesas, de tudo. Eles o aconselhavam a desistir de cortejar a jovem Cassia Saint-Floire, algo que o outro nunca cogitou em fazer.
Sendo um homem aberto ao novo, ao que não conhecia, era certo que quisesse experimentar aquilo por conta própria, saber se tudo aquilo era verdade ou não. Caso fosse, pediria o divórcio, pois a sua religião o permitiria, deixando uma parcela de sua imensa riqueza para a esposa e aos eventuais filhos que com ela tivesse.
Assim passou o ano, nunca havendo casa tão feliz quanto a dos Fairy-Stone, sobretudo quando a Sra. Saint-Floire Fairy-Stone teve total certeza de que esperava um herdeiro.
A felicidade do casal foi imensa, resultando em grande festa e distribuição de presentes aos amigos e parentes da esposa; da parte do marido não existia parentes vivos, nem mesmo primos em nenhum grau possível ou impossível.
Era dezembro, perto do Natal. Toda a Londres estava coberta de neve, tão imaculadamente branca que contrastava o cinza e o preto da cidade poluída. Ouvia-se hinos de louvor, cantigas natalinas, sinos tocando; viam-se pessoas dando e recebendo presentes. E, misturados ao odor poluído, aromas diversos, como os de assados e cozidos.
A dois dias da festa que celebrava o nascimento de Cristo, a Sra. Fairy-Stone preparava as decorações da casa, sendo auxiliada pelas empregadas e pela mãe.
O primeiro Natal festejado como casada emocionava-a, obrigando-a a não cometer erros, mesmo que mínimos, afinal iria receber os seus parentes e os melhores amigos do marido. Por isso ela própria escolhera a decoração e indicara onde cada item decorativo deveria ir.
Lá fora a neve voltava a cair, parecendo melancólica e sublime. Alguns transeuntes ousavam andar devagar, apenas ajeitando guarda-chuvas ou casacos.
A Sra. Fairy-Stone olhou através do vidro da janela da sala de estar, um pouco embaçado, pensando se seria assim durante a festa. Temia que os seus parentes não chegassem a tempo para celebrarem o Natal, pois as estradas ficavam ruins para as carroças e carruagens em tempos de neve.
Ela olhou para baixo, vendo primeiro a barriga já saliente, guardando uma vida frágil que logo viria ao mundo trazer grandes alegrias. Espartilhos e qualquer outra coisa que pudesse apertar a cintura foram proibidos de serem usados, o que lhe dava uma silhueta um pouco gorda.
Em seguida viu o piso branquíssimo do casarão, todo feito em cerâmica da mais alta qualidade e valor. Ela notou uma rachadura desenvolver-se rapidamente em sua direção, engolindo uma das pernas da cadeira em que estava em cima, para ajudar a decorar a parede.
A Sra. Fairy-Stone tomou um grande susto, provocando um grande desequilíbrio. Antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa para segurá-la, o seu corpo caiu violentamente.
Houve gritos de dor, de desespero, ordens de uma mãe preocupada com a filha e com o neto, a correria de empregadas; também houve uma grande gargalhada macabra, ouvida somente pela mulher caída no piso, manchando-o de sangue, e um par de olhos demoníacos que pareciam apreciar toda aquela cena.


P.S.: Capítulos anteriores? Clique aqui!

4 Comments:

  1. Paul Law said...
    E oque será que aconteceu com ela? Tudo parecia tão bem; tão feliz, Alec.

    Espero quelogo você possa liberar mais capítulos. Um abraço, amigo

    Parabéns, pelo texto!
    Alec Silva said...
    Em breve...
    Vamos deixar no ar a curiosidade desta "novela mexicana", não?
    Abraços...
    R.M.S.Silveira said...
    Acho que eu já elogiei tudo o que tinha que elogiar, não? Mas é sempre bom um registro permanente.
    Ótimo texto, Alec, você tem muito talento! Excelente!
    Alec Silva said...
    ^^

    Fico lisonjeado!

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